Governo Lula questiona composição do debate, e ministro amplia lista de convidados; impactos sociais, econômicos e jurídicos das apostas estão em discussão.
O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta terça-feira (3) uma audiência pública convocada pelo ministro Luiz Fux para discutir os impactos da proibição das apostas esportivas e dos jogos online, conhecidos como bets, no Brasil.
O encontro reúne 34 representantes de órgãos públicos, clubes de futebol, entidades empresariais e organizações ligadas ao setor de apostas.
A audiência ocorre em meio a uma controvérsia sobre a composição dos participantes. Segundo levantamento divulgado nesta terça-feira, pelo menos 22 dos 34 convidados já se manifestaram contra a medida provisória do governo federal que proibiu a exploração das bets no país.
Governo questiona equilíbrio da audiência
A Advocacia-Geral da União (AGU) solicitou ao ministro Luiz Fux a ampliação da lista de convidados, argumentando que a composição inicial privilegiava representantes de clubes esportivos e empresas de apostas.
O órgão manifestou preocupação com a possibilidade de o debate não contemplar adequadamente os diferentes posicionamentos sobre os impactos da atividade.
Fux acolheu parcialmente o pedido e incluiu representantes dos ministérios da Saúde e da Justiça e Segurança Pública, além da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e outras entidades.
Apesar da ampliação, organizações ligadas à saúde mental e à defesa do consumidor, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), não foram incluídas na audiência.
Clubes de futebol defendem interesses econômicos
Entre os participantes estão Flamengo, Corinthians, São Paulo, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro e outras equipes, além da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
O setor esportivo demonstra preocupação com as consequências financeiras da proibição, especialmente diante dos contratos de patrocínio firmados com empresas de apostas.
Representantes do mercado também questionam a segurança jurídica da medida e os efeitos sobre empresas que receberam autorização para operar no Brasil.
Endividamento e saúde mental entram na discussão
Por outro lado, representantes do governo e entidades favoráveis à proibição apontam os impactos sociais das apostas, especialmente sobre famílias de baixa renda.
Entre as preocupações estão o superendividamento, o comprometimento do orçamento doméstico e o crescimento dos casos de dependência em jogos.
Dados apresentados no debate público indicam aumento de 140% nos atendimentos relacionados ao transtorno do jogo no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2018 e 2025.
A Associação Brasileira de Supermercados também pretende apresentar informações sobre o comportamento do consumo de alimentos após a proibição das bets, embora ainda não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
STF vai decidir futuro das apostas
A audiência ocorre no âmbito da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 8027, apresentada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que questiona a Medida Provisória 1.394/2026, editada pelo governo Lula.
A entidade pede a suspensão da norma e o reconhecimento da constitucionalidade da legislação que regulamentou as apostas no país.
O ministro Luiz Fux, relator do processo, deverá utilizar as informações apresentadas para subsidiar a análise da controvérsia.
A audiência pública não representa uma decisão definitiva sobre a proibição das bets. O julgamento da constitucionalidade da medida ainda depende de deliberação do Supremo.
O debate coloca em discussão os interesses econômicos do setor, a proteção dos consumidores, a saúde pública e os limites da atuação do Estado sobre as apostas online.

